Quinta-feira, Julho 13, 2006

KRUDER & DORFMEISTER - THE K&D SESSIONS

A primeira vez que vi esses austríacos tocando, foi no volume cinco da série Café Del Mar, onde eles trabalham em "Transfatty Acid" do Lamb, que inclusive, está presente no disco aqui falado. Sim, eles são "remixadores", mas não é somente pelo fato dos caras terem esse atributo que merecem ser jogados na lata de lixo, sendo tratados com um desprezo, como se no caso deles fosse realmente inferior retocar canções. Muito pelo contrário: a dupla faz um trabalho inteligente e sofisticado, sem ser esnobe. Me irrita muito ouvir comentários do tipo: "Ah, mas eles são apenas remixadores!"! Oras, diferente do Rammstein, que foi detonar "Stripped" do Depeche Mode, K&D dão um toque mais sutil, de outra visão que merece ser respeitada (apenas para desencargo de consciência, eles remixarem no K&D Sessions "Useless", do Depeche Mode, que diga-se de passagem, ficou tão agradável como uma manhã de sábado com sol, sem nuvens). Falando em manhã de sábado de sol e sem nuvens, é essa a idéia, afinal, tocam para relaxar, e ouvir com cuidado.
acordando com poeira na cara... poutz... Mas nem tudo são flores. Vou confessar que, quando este disco chegou às minhas mãos, eu esperava mais! Oh, sim, esperava. As músicas ficam muito embaladas, e até repetitivas em alguns pontos, parecendo muito com letra de pagode, no sentido musical mesmo. E falta também um certo bom uso, melhor exploração de picapes. As músicas também parecem estar em fase experimental, mas mesmo assim não deve ser chamado de um trabalho de amador! Mas como é um disco duplo, a gente pode ter paciência e pensar "não, ainda é muito cedo pra desistir! Alguma coisa tem que se salvar!". E se salva, mas não tira a mocinha do lago do crocodilo, ainda. Lançado em 1998, o disco nada mais é do que o nome sugere, sessões realizadas com outros músicos, reunindo uma série de trabalhos. Então, por serem dois discos, e por ser um trabalho tímido, porém persuasivo, será analizado apenas o que vale a pena deitar no sofá e dedicar uns (bons!) minutos.

Pulando as duas nabinhas iniciais, chegamos a Speechless, meio baladinha, mas vale a pena pra soltar um pouco. Hi-Fi Going Under é ótima, criando uma história doida de alguém depois de perseguido, sendo pego e interrogado, tipo um Sin City da vida. Bug Powder Dust mesmo com aquele hip hop (que graças ao K&D não permitiu, pelo jeito, temas como mulher, carro e dinheiro!), e por causa daquele hip hop agora: deu um clima mais dança para um som aparentemente morto e tímido. Rollin' On Chrome, apesar de ter aqueles vocaizinhos imbecis de fundo, é também gostosa, criando uma aventura a ser ouvida e vivida. O clima sensual começa então com Useless, ótimo pra uma relação sacana... de um triângulo! Gotta Jazz entra como um banho de chuva, doce, simples, e oportuno, tudo isso bem na hora certa. Donaueschingen é extremamente confortável, graças ao soar delicioso de uma voz feminina de fundo, e uns vibrafones. Mas a meu ver, o carro-chefe deste álbum, Trans Fatty Acid, mesmo já sendo deliciosa, especialmente com a finalização dela, podia ter algumas melhoras, como ausência de repetecos de ritmo. Pelo segundo disco, temos uma boa representação com Eastwest, com um batuque agradável. Where Shall I Turn é perfeita se fosse descrever um olhar, aqueles que se dá na rua mesmo, ou em qualquer lugar. Bomberclad Joint é a trilha pra ficar como "dois pombinhos" em uma praia, mas seria ao mesmo tempo desanimador se chegasse um bêbado e começasse a dizer "bomberclad, bomberclad"...

É um trabalho legal de se ouvir sem esperar muito, então. Claro, se quiser achar graça, vai ter que gastar um bom tempo. Apesar de não serem muito otimistas as minhas impressões, talvez "The K&D Sessions" seja um bom começo, se o ouvinte não for levado pela ansiedade. Afinal, K&D é K&D. Vale a pena, porque, uma hora ou outra, todo o mundo vai querer relaxar e ficar sem compromisso com o mundo, e sem exigências com os outros.

Terça-feira, Junho 27, 2006

ZERO 7 - SIMPLE THINGS

É possível definir o Zero 7 como um grupo maduro e decidido. Formado pelos ingleses Henry Binns e Sam Hardaker, logo no primeiro disco os caras já mostram essa competência, para quem costumava apenas remixar músicas de outras bandas, como Radiohead. A parte instrumental, pelo menos, já dá um ar de um bom lounge music, misturando sintetizadores e gostosos arranhões de violoncelos. Existem muitas comparações com o trip-hop, na hora de "rotular" os caras (coisa que acho apenas interessante pelo lado comercial da coisa, não pelo lado "arte pela arte"). Pessoalmente, não consigo caracterizá-los como um trip-hop, mas talvez, como um lounge "pós-moderno", até pela questão do uso de instrumentos não-eletrônicos, como violões em algumas faixas, e uma discrepância entre o tipo de batida. Além de não deixar de ser um soul, por conter vocais femininos que lembra em algum canto India Arie (talvez esse argumento seja rotular, mas que é uma característica marcante do soul, é), bem trabalhados, além de colocar um clima saboroso no ar, ainda que eu considere o soul um gênero mais mela-cueca, bom pra coxilar no meio das execuções. As letras também são parte integrante do pacote, que não ficam por menos, variando entre pirações da dupla, e amores correspondidos...

ando, caindo, andando...
Mas mesmo tendo todos esses predicados, acredito que o mesmo primeiro disco, "Simple Things", talvez para mim não tenha sido um bom começo. É possível que eu visse Zero 7 com olhos menos embaçados se esse mesmo disco não tivesse me sido apresentado como o primeiro trabalho da banda. Claro, os motivos são pessoais, como sempre, mas desta vez, acredito que não conseguirei deixar a minha vida e visão pessoal, e o contexto em que a mesma e este disco são inseridos mutualmente, de lado. Sim, porque o disco apareceu para mim em um momento difícil da minha vida. Então, a minha opinião pessoal e quase repetida de todas as faixas, estará presente nesta resenha, mais do que todas as outras vezes. Mas qual o problema afinal? Bem, o álbum é tão melancólico sentimental que ele impede que o cérebro faça as transmissões de informações racionais da maneira correta, sem se influenciar pelo som e o que acontece na vida cotidiana, através de trompetes, violoncelos e instrumentos profundos em algumas faixas, onde se tem esta sensação de maneira mais clara. Se não fosse isso, com certeza, a minha nota para o trabalho seria um belo e merecido dez, afinal, a parte musical e lírica estão trabalhando de uma maneira muito singular na obra, com batidinhas agradáveis, vocal impecável, e letras dramaticamente belas.

A primeira faixa, I Have Seen, vem como uma espécie de calmante para as bombas cardíacas (no sentido não-literal) que viriam depois, com um vocalista de primeira, lembrando aqueles habitantes de casinhas no meio da floresta, apenas com o seu cachorro, e um batuque delicioso de ficar cantarolando por aí. Polaris, apenas instrumental, parece um sonho, na cabeça de alguem que se gosta estando no mesmo sonho, e deveras, a música é dopante. Destiny caracteriza-se como a mais deprê do disco, lembrando uma praia deserta, com a água batendo nos pés, enquanto a vida apenas passa e passa, e com uma bela anja (mesmo!) cantarolando. Give It Away, já menos sufocante, cria um motivo sensual para algum cenário, talvez uma manhã de domingo, ainda recém acordando, não sei ao certo. Simple Things volta com o ar sugador de corações, com uma voz desesperada, talvez por algum sentimento maior. Red Dust joga o ouvinte para uma espécie de manhã pós-pé na bunda, com um ar de "conforme-se rapaz, levante-se!". Distractions parte para uma espécie de solidão sem volta, em que nada mais pode ser feito, como um cara que fez suas distrações com a ex, mas ela não quer entender que ele faz tudo isso como um jogo com ele mesmo. In The Waiting Line pelo menos na letra já dá uma aliviada, e só, porque a parte sonora continua de jazer. Out Of Town não dá nada, a essa altura, ao ouvir o disco, eu já tinha ficado indiferente para a energia dela (indiferença). This World possui uma letra linda, provando que realmente tudo parece ter uma esperança, e a música em si imbute isso, ainda que daquela maneira dura. Likufanele atira de novo aquela sensação de solidão consentida, sem mais atributos. Agora, não consegui captar ainda a jogada para End Theme, a última faixa do disco, para ser uma música tão dançante, como se dissesse: "Chega, você apanhou muito! Agora relaxe um pouco!".

Se puder, ouça sim este disco! Apesar de tudo o que foi dito, e que acredito até que você já esteja chorando aí do outro lado, dizendo "Ah, não! Quero continuar na minha!". O disco é um trabalho inteligente, bem aproveitado e aproveitável! Desta vez, a minha descrição de álbum foi pessoal demais, cada um é cada um. A única coisa, é que é um disco lacrimejante. Chorar faz bem!